quinta-feira, 29 de junho de 2017

A difícil adaptação....  

O nosso 1º. ano por terras de Africa, estranhas e desconhecidas, apesar da euforia por “estar estrangeiro”, sem compromisso e com vida folgada e bem suprida, foi difícil e a adaptação foi se dando lentamente, agravada com a luta contra doenças que foram aparecendo inesperadamente. A situação ainda piorava à medida que percebíamos que nada sabíamos sobre os meios e locais de tratamento, em meio a tanta carestia... E, quando ficávamos “muito” perdidos, dava logo a vontade de pegar um avião e voltar correndo “pra casa”.
 

Foram doenças de todos os gêneros, desde grandes infecções, como a Hepatite não A e não B, que atingiu inicialmente o CH e depois a Natasha, problemas de pele (furúnculos, antraz...), longas infecções de ouvido e até uma apendicite, que resolveu atacar a Natasha, perto de completar os seus 11 anos. Eu já não aguentava tanta coisa, mas fomos ganhando experiencia, confiança e acho que, resistência também e ao fim do 1º. ano já nos considerávamos quase que diplomados!


Contudo, a adaptação continuava e, aos poucos fomos aprendendo a conhecer o local e o povo e, principalmente, a conhecer a nós mesmos, como família, na convivência diária com as filhas, coisa que pouco fazíamos antes, com aquela vida stressada e agitada no RJ. Tenho boas lembranças dessa altura e avalio ter sido esse, o maior “ganho” dessa aventura.





 
 
Pouco tempo depois de chegarmos… sim, pois viemos todos! Era essa a condição do CH, frente aos meus inúmeros argumentos para que ele viesse sozinho, por uns tempos, depois eu e as meninas viríamos… Será mesmo? Não sei.

Mas ele estava certo, pois constatamos que muitos dos estrangeiros que haviam se aventurados sozinhos nessa terra, passavam por muitas dificuldades, inclusive o convívio com a solidão… mas tinham outras regalias, como se ver livres para curtir o bom salário e outras facilidades do contrato de trabalho, e as “benesses” entre os locais. Essas “regalias” provocavam, na maioria das vezes excessos de varias ordens, inclusive de bebidas e sexuais, que resultavam em relações duplas, rompimentos de casamentos “sólidos” ou mesmo constituição de famílias moçambicanas J

Mas retomando ao assunto inicial, algum tempo depois da nossa chegada, a realidade local começou a ser fazer mais presente em confronto com a realidade “criada” pelos nossos anfitriões – os suecos que se mostravam mais atuantes que os brasileiros, ambos responsáveis pela nossa vinda, representantes das empresas que  haviam contratado o CH. Apesar de todos os esforços em nos acomodar “adequadamente” em apartamentos que tinham de tudo, desde gerador para termos energia todo tempo, apesar dos cortes frequentes, do mobiliário de 1ª, eletrodomésticos, roupas de cama, mesa e banho novos, ou seja perfeitos! Por dentro, porque mal se abria a porta se constatava a “realidade” de sujeira, lixo e ratos por toda a parte,  escuridão por falta de energia, agua nas escadas… gentes na rua que ao nos ver pareciam estar vendo ET´s… era engraçado ver as crianças locais, se aproximarem das meninas, com os seus longos cabelos castanho-claro, e passar as mãos por eles… acariciando como se fosse um “bicho-de-pelúcia”, sem o menor constrangimento, bem próprio de crianças. As nossas, achavam graça de inicio mas depois se sentiam mal, ao se ver rodeadas de outras crianças desconhecidas e que riam muito ao tocar nos seus cabelos…. Com isso, tivemos que evitar andar a pé em certas áreas, para tentarmos passar “desapercebidos”, como pessoas normais, semelhantes aos habitantes locais. Era uma situação bem própria, quase constrangedora.


Com isso, passamos a conviver mais com outros “estrangeiros”, “cooperantes” como éramos todos chamados pela população local, mesmo pelos recém-conhecidos-amigos moçambicanos. Assim, passamos a nos locomover mais de carro, frequentar restaurantes e os poucos clubes que existiam, com as mínimas condições de receber as pessoas, como o Clube Naval, onde passávamos quase todos os fins de semana, a curtir piscina, beber cerveja, muito forte por sinal – “BLACK LABEL", "LION”, “CASTLE” e outras marcas sul-africanas, carregadas na cevada e no álcool – bem diferente da nossa SKOL, BRAHMA ou do chop, clarinhos e levizinhos que havíamos deixado pra trás dos quais tínhamos taaaaaaaantas saudades. Mas tinham os camarões, ameijoas (das quais nunca tinha ouvido falar ou mesmo provado), lulas, bons peixes e até lagostas, com fartura! Ou seja, não havia muito sofrimento nisso, pelo contrario J
 
 


 
Lagostas à vontade.... :)
 
 
Nesses 26 anos muita coisa aconteceu, umas boas, outras nem tanto, mas tudo aprendizado e muita mudança… crescimento!

Moçambique era tão desconhecido para nós que nos vimos abrigados a comprar um Atlas Geográfico! E que felizmente encontramos, usado na escola de 1º grau, único à venda nas poucas lojas que funcionavam na altura.

Aí ficou mais fácil nos “localizar” quando ouvíamos falar de Swazilandia, Zimbabwe, Botswana, etc … já sabíamos mais ou menos onde estávamos em relação a esses países que mal conhecíamos. E tambem, pudemos conhecer mais um pouco sobre esse país, suas províncias (5) sua geografia, parcas montanhas, alguns rios e bem caudalosos e muita savana e até sua gente, em forma resumida e bem fácil de entender, na linguagem escolar.

Mantive esse Atlas até há poucos anos, e ao me desfazer dele, tive pena, pois nos foi de imensa ajuda numa altura que éramos “cegos” em relação a esse país, quiça à todo continente de Africa.

Poucos anos mais tarde, pudemos avaliar o quanto éramos ignorantes quanto à Africa, que nunca foi móbil de estudos em nossa vida escolar, e o quanto o brasileiro desconhecia do mundo que não fosse USA e algumas partes da Europa – Portugal, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra… lamentável. Já começava o nosso aprendizado...

Fevereiro de 1991 - embarque para Maputo, Moçambique
amigos todos reunidos, dando "aquela" FORÇA :)

 
 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

"Em muitas ocasiões, perguntas se a tua religião é realmente a melhor.
Faze o exame da própria fé. E, se dúvidas te avassalam o pensamento em matéria de crença, conduta, preconceitos e tradições, entra no mundo de ti mesmo e indaga da própria consciência qual teria sido entre os homens, a religião de Jesus”.  Emmanuel & Chico Xavier.  
Lição: Tua Religião. Livro: Mãos Marcadas.
 
 
 
 

terça-feira, 20 de junho de 2017


1991, foi um ano que começou com muitas perspectivas e alguma ansiedade, pois sabiamos que iríamos embarcar numa “Aventura” que parecia quase surreal, pois pouco ou nada conheciamos desse pais, Moçambique.

O pouco que sabíamos eram comentários das pessoas que entrevistaram o CH – viríamos para uma cidade, chamada Maputo, onde viviam alguns brasileiros e teríamos toda a assistencia necessária.

Eu, sentia um mixto de insegurança e tristeza, pois iria deixar para trás um trabalho que gostava, grupo de amigos e colegas com quem adorava conviver, mas tambem uma vida dura, com baixo salario, muito trabalho em casa, pouco convivio com as filhas, poucas perspectivas de mudanças, raras ocasiões de lazer mas com a possibilidade de “viagens” esporádicas e bem comedidas - uma vida típica de classe méda. Para partir para terras desconhecidas, um país que estava em guerra, mas onde haviam brasileiros, se falava o Portugues e com bom salario!

A oferta de “bom salario” realmente contou muito, mas não foi preponderante.

A situação de descontentamento com o emprego, do CH é que foi o fator determinante para nos aventurarmos a procura de melhores condições de vida profissional, social e financeira.

Assim, nos lançamos com a perspectiva de ficarmos 2 anos fora do país e guardarmos grana suficiente para uma vida folgada quando voltássemos.

Não foi bem assim que funcionou, visto estarmos em 2017 e eu ainda por aqui… J
 
Pergunta-se, valeu a pena?
 

 


O que acham?

Tomei uma decisão!

Sim, tomei uma decisão.


Acho que a proximidade dos "60" está mexendo com a minha cabeça mesmo...
Momento de "decidir" o que pretendo da vida doravante...
onde quero estar...
o que quero fazer...
com quem gostaria de estar...

Já passei da fase do "quem sou eu" para "o que quero ser"
Enquanto decido estas coisas, penso estar na altura de fazer uma espécie de "balanço" da minha vida. E como já se mostra "muito longa" - quase 60 anos, vou fazer por partes, começando com a 2a metade dela, em que passei aqui em Africa - Moçambique.

Portanto, doravante é buscar na memória as situações, pessoas que me marcaram a partir de 1991.
Um ano capicua, cheio de 1´s e 9´s... bem cabalístico :)